O nome McFerrin vai do erudito ao jazz, do dó ao sí, de pai pra filho.

Vamos tentar começar do começo. As artes sempre foram território branco. Isso é um fato, um fato histórico inclusive. O primeiro negro a despontar mundialmente nas artes plásticas foi Jean Michel Basquiat, e isso se deu apenas em meados de 1980, antes disso, apenas regionais e de pequena expressão. Na música o caminho é diferente, o Jazz, o Blues que originou o Rock, o Samba brasileiro originado na mistura de batuques africanos e no Jazz americano, temos ótimos exemplos para nós (negros) nos orgulharmos e ostentarmos. A música sempre foi nossa… até um certo ponto, até chegarmos naquilo que muitos consideram “música de verdade”.

A Música Clássica nunca foi território para negros. Passem longe dos Theatros das grandes orquestras Sinfônicas com seus tambores, sapatos barulhentos e suas notas sujas. O lugar é para contemplação de instrumentos de sopros, cordas, percussão e partituras de tantas páginas e milhares de notas, escalas e variações. Não temos espaço para seus arranjos. Nossa Ópera não permite a voz suja e rasgada de um negro como Louis Armstrong ou o piano louco de Nina Simone. Você não pode pagar sequer pela palheta do Clarinete que Kenny G usa.

Até o dia que o mundo contemplou, no Metropolitan Opera de Nova York, um negro, segundo Albert Goldberg para o Los Angeles Times: “um barítono com ótimas qualidades em todos os registros”. O primeiro Afro-Americano a se destacar na Ópera: Robert McFerrin.

O pai abriu as portas apenas com a voz e o filho garantiu o lugar da família e de todos os negros também (e somente) com a voz. Robert é pai de Robert McFerrin Jr, mundialmente conhecido por Bobby. Ainda não sabe quem é? Ele foi o cara que ganhou 10 Grammys em sua carreira até hoje, sendo que um deles, o primeiro vencido por um disco Acapela (apenas voz, sem instrumentos), 3 desses prêmios foram apenas pra uma música, ele não gosta de ser lembrado apenas por ela, mas pra não gerar dúvidas de quem ele é, comece a música com um assobio e estalar de dedos, junte o Robin Williams e no refrão coloque uma filosofia de Meher Baba: “Don´t Worry, Be Happy!”

Muito além de um artista de uma música só, Bobby toca piano, contrabaixo e clarinete e quebrou barreiras sendo regente de Orquestras Filarmônicas em apresentações de músicas clássicas pelo mundo, sempre terminando com William Tell Overture, de Gioachino Rossini. Mas se for pra cantar, a voz dele tem uma extensão de quatro oitavas e a capacidade de enganar o ouvinte, como se estivesse cantando duas notas ao mesmo tempo, isso é chamado de Voz Absoluta. Para se ter uma ideia, Ella Fitzgerald, a rainha do Jazz, tem uma extensão de três oitavas.

Seu último disco, Spirityouall, Bobby homenageia seu pai, falecido em 2003, de forma linda, com uma seleção de canções tradicionais na linha gospel e com colaborações da cantora e baixista Esperanza Spalding. As músicas, segundo Bobby, são canções que seu pai gostava de cantar, chegando até a gravar algumas delas, e tenta ser um álbum com musicas pra alma.

E por falar em música, que tal aproveitar pra curtir nossas playlists no Spotify?

Criamos uma play só com mulheres que marcaram a história do Jazz, sobre ícones da música brasileira negra como Jorge Ben, Sabotage, Cartola, uma play com o melhor do Samba e uma novíssima com músicas de resistência para essa semana da Consciência Negra.

Ouça abaixo uma prévia do que tá rolando por lá!

Andre Xavier

Author Andre Xavier

Artista por hobbie, com uns gostos estranhos pra música, hiperativo, amante de de um bom café, um bom livro e de uma ótima companhia. Misture tudo e você criou um Publicitário! Mas o que ele está fazendo aqui? Bom...cenas no próximo capítulo...

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