A falta de colegas de classe negros abriu meus olhos para uma questão social importantíssima: a marginalização dos negros

Você chega na sala antes da maioria dos alunos, não quer ser notada quando a sala encher ou assim que o professor chegar. Não que tenha feito algo errado, talvez não haja o que esconder, apenas o fato de ser um dos poucos negros ocupando uma cadeira na universidade. Essa foi minha realidade no primeiro dia de aula na universidade onde comecei minha vida acadêmica. Talvez você se identifique, talvez não. Depende da sua cor de pele e, claro, se você já passou por uma sala de universidade.

Fui uma das poucas alunas negras em um curso que tem em sua maioria figuras de pele branca: o jornalismo. Mas e a Maju? E a Glória Maria? E a Joyce Ribeiro? E a Zileide Silva? Esses são os poucos rostos negros femininos que estampam minha área profissional na rede de televisão mais famosa do país.

Quando optei por jornalismo, tempo depois de terminar o ensino médio, as comparações já se iniciaram: “Vai ser a nova Glória Maria” – a Maju ainda não havia entrado em evidência. E a minha ficha só caiu de verdade sobre porquê a televisão não mostrava mais peles como a minha em um cargo de reconhecimento quando me sentei na cadeira da sala.

“Os negros não são representados na televisão porque não chegam à universidade”

Por que uma quantidade tão baixa de negros em busca de uma especialização superior se somos a maioria da população?

Sim, você leu certo, mais de 53% da população brasileira se denomina negra ou parda. Os dados são da pesquisa do IBGE de 2014.  Desses mais de 111,327 milhões negros, 58,55 milhões concluíram o ensino médio até os 24 anos. Em 2004 esse percentual era de 33,4%. Dentre os que concluíram o ensino médio, 26,64 milhões passaram pelo ensino superior (o que explica a minha participação na classe minoritária), entre os quais 12% concluíram o curso que deram início.

As favelas ainda nos têm como habitantes nativos.

Uma pesquisa do IBGE de 2004 levantou dados em que 73,2% dos mais pobres do país eram negros, em 2014 os números aumentaram para 76%. Esse número indica que três em cada quatro pessoas que estão na parcela dos 10% mais pobres do país são negras. E é nessa hora que precisamos falar sobre um assunto tão polêmico quanto as cotas raciais.

Lei das Cotas Raciais – Correção de desigualdades raciais

Todos guardamos em nós a máxima de que não deveriam existir políticas públicas que favorecessem determinadas classes da sociedade, como negros, índios, LGBTs, entre tantos outros, “ora, somos todos iguais”. E isso é uma verdade, nossa sociedade seria melhor se houvesse essa igualdade utópica entre seus atores. Mas não é assim. Aceite você ou não, o preconceito racial (e não só ele) existe e é atuante em pleno século XXI. A sociedade igualitária que é vendida diariamente cai por terra quando pesquisas sociais são feitas e percebe-se a discrepância entre o que é ficção e o que é realidade.

Como dito anteriormente, a grande parte da população pobre nacional é negra, o que dificulta sua imersão em uma universidade. Mas, as condições de vida de alguém não deveriam, em um pais supostamente democrático, impedir que essa classe frequentasse aulas de ensino superior. Para isso já existem faculdades públicas que, diferentemente do seu propósito atual, não são tão fáceis de ingressar como se esperava.

Para não privar completamente o negro de ter um diploma na parede e exercer uma profissão melhor remunerada, políticas públicas foram implantadas para que as oportunidades surgissem. Entre essas ações inclusivas, a que mais divide opiniões é a Lei nº12.711, mais conhecida como “lei de cotas”.

A lei de cotas é uma medida que estabelece que todas as instituições de ensino superior destinem metade de suas vagas nos processos seletivos para estudantes de escolas públicas até agosto de 2016. O critério para a utilização do recurso leva em consideração não só questões raciais como sociais também, pois considera fatores econômicos.

Contra ou a favor?

As cotas dividem opinião entre quem é a favor e acredita que a sociedade em que vivemos é racista e deve oferecer oportunidades aos que vivem à margem da “raça superior”; e quem é contra e defende que a constituição de 1988 nos iguala como indivíduos e que a medida realça o racismo vigente. O que precisa ser observado, na verdade, não é a opinião favorável ou não, mas sim, os resultados de fato que a medida trouxe para a sociedade. Atualmente, 27% das matrículas em cursos superiores são preenchidas por pretos e pardos, um número que antigamente era bem pequeno (veja Box).

A mistura entre negros e brancos fomenta o debate sobre o racismo velado que a sociedade alimenta. O que aumenta a responsabilidade do Estado de procurar formas de reparar essa desigualdade tão gritante. O desafio é conscientizar a população brasileira de que negros representam o maior percentual em aspectos negativos como o maior índice de homicídios, maior população em favelas, maior população em cadeias; e aspectos negativos como menor renda salarial, menor escolaridade e menor representação pública.

Mesmo após 129 anos desde a abolição da escravidão, os números de participação de negros em uma sociedade que somos mais da metade continuam tão baixos. Diante desses cenários, ficam dois questionamentos: Quanto tempo levará para o negro se reposicionar e, a partir disso, começar a mudar sua situação social? Quanto tempo para que nos tornemos maioria, também, nas salas de aula? Debater sobre o racismo dentro das universidades, principalmente quando falamos de cotas raciais, é essencial para começar a colocar um fim ao racismo estrutural que nos silencia e nos exclui.

Jalu Malaquias

Author Jalu Malaquias

Guria paulistana, 20 e poucos, sapiosexual, aspirante à jornalista, escritora, documentarista e tantas coisas mais que se propuser a ser. Mantém fortes vícios por café, Machado de Assis, política, fotografia, cinema e livros.

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