129 anos após a abolição da escravidão, professores negros são minoria nas universidades.

Quantos professores negros você tem? Segundo o IBGE, mais de 53% da população brasileira é negra, então por que não os vemos nas universidades? Por que são poucos no universo acadêmico?

A jornalista Cláudia Nonato, é formada pela faculdade Cásper Líbero, tem mestrado e doutorado na ECA-USP, desde de 2014 dá aulas de jornalismo social e comunitário, também leciona em planejamento de trabalho de conclusão de curso e faz parte do mestrado profissional em jornalismo, na faculdade FIAM- FAAM, em São Paulo. Na fase de estudante não sofreu diretamente preconceito mas, na instituição quase não existiam negros, ela e mais um amigo eram os únicos entre alunos e docentes. Sua carreira fluiu naturalmente trabalhou no Jornal da Tarde, no Diário de São Paulo. Colaborou em comunicação corporativa até retomar os estudos e ingressar na carreira acadêmica. Questionada sobre o por que não vemos professores negros em sala de aula, responde:

“Temos que ter uma estrutura social, familiar, que nos ajude a chegar onde a gente quer. Quando as pessoas usam as cotas, são vistas que chegaram porque tiveram cotas, mas temos que entender que as cotas são um jeito de recompensar tudo que foi feito contra a população negra, contra o genocídio dos negros. Enquanto as pessoas não reconhecerem isso, não vamos ter apoio nos programas de cotas, e as pessoas só vão chegar lá assim, ou algumas exceções como eu. Agora com essas mudanças nos programas sociais, eu não sei se os negros vão chegar em um número adequado ao mestrado e doutorado”.

Laís Helena Custódio Rodrigues de Queiroz, 26 anos vive em Ribeirão Preto. Com 17 anos começou cursar a faculdade de relações internacionais na UNESP, em Franca. Fez mestrado em Brasília, em desenvolvimento, sociedade e cooperação internacional, na UNB. Na universidade, em sua classe havia cinquenta alunos e apenas quatro deles negros. Durante toda graduação participou do movimento estudantil. Trabalhou durante um ano na Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Atualmente, é professora no curso de relações internacionais da UNESP, aplica uma aula optativa para os alunos planejada por ela de cooperação internacional e epistemologia do Sul e também a disciplina TARI – Temas Aplicados às Relações Internacionais . É militante do Movimento Negro na cidade onde mora.

“No meu curso as pessoas entram com pensamento de diplomacia, entram já sabendo outras línguas, têm vários privilégios ali, que quando chega uma pessoa que quebra todo seu padrão de círculo social, acabam não sabendo como agir. Acabei ouvindo vários comportamentos racistas sim, mas hoje, com a visibilidade do movimento negro na juventude eu vejo que essas pessoas estão desconstruindo de várias formas”, conta Laís Helena.

Mesmo com a lei 10.639/03, que instituiu a obrigatoriedade de inclusão do tema “História e cultura afro-brasileira” no currículo da rede de ensino, ainda é difícil ser educador e abordar o assunto dentro da sala de aula. “O desafio de ser um professor universitário é o fato de ainda ser um espaço elitista, um espaço branco, um lugar que aquela figura de docente ainda é de um imaginário de um sujeito que vem de uma classe dominante, de uma elite intelectual. E quando você tem um negro dentro deste espaço, ele traz outros elementos para a pesquisa acadêmica. Nas aulas, os estudantes começam a perceber que o espaço não deve ser dominado por pessoas brancas, trazemos várias reflexões”, afirma Laís Helena.

“Têm pessoas que olham para a gente como se fôssemos inferiores. Temos que mostrar todos os dias por que estamos ali, porque temos capacidade e competência como qualquer outra pessoa”, defende a jornalista Cláudia Nonato.

Carol Thieri

Author Carol Thieri

Estudante e apaixonada por jornalismo. Paulistana, do bairro do Ipiranga e taurina, é mãe de menino e educadora no projeto social “É nóis, crianças do bem”. No topo de sua estante, 'Cem anos de Solidão', de Gabriel García Márquez, ocupa a posição de seu livro favorito. Nas horas vagas prefere dançar e tocar atabaque em um terreiro de Umbanda. Acredita, que com educação e amor, as crianças irão salvar o mundo!

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