“I’m a black man in a white world”

O Colorismo sempre esteve muito presente na minha vida, e talvez isso tenha tido um grande impacto na minha formação. Por ser negra de pele clara e por nunca ter passado dificuldades financeiras, eu não sofri as violências racistas que outros negros de pele escura que moram em regiões periféricas sofreram – e ainda sofrem.

Tive minhas referências de mulheres negras na infância, mas lá no início dos anos 2000 qual negro tinha visibilidade para questões sociais e para pautas sobre nossas questões de negritude? Fomos escravizados, discriminados, mortos, tratados como menos, e eu ainda não entendi por quê algumas pessoas torcem o nariz para o movimento Black Lives Matter. E não me venha com papo de racismo reverso.

A verdade é que boa parte da minha vida eu nunca me aceitei como “preta”, “negra” ou “neguinha”; eu era apenas “morena”. Por muito tempo fiz parte da parcela de negros que não se aceitam; a parcela que sofre racismo em casa, na escola/faculdade e no trabalho, que se auto sabota, e que também faz piadas racistas. Aquela parcela de negros que não se enxerga como negro e muito menos como branco, uma parcela que está ali só para fazer suas coisas e morrer.

“I’m in love but I’m still sad, I’ve found peace but I’m not glad. All my nights and all my days, I’ve trying the wrong way”

Na escola, racismo era discutido superficialmente, e a gente só prestava atenção quando eles diziam que fulano ou ciclano haviam sido mortos por conta disso. Eu, na minha ignorância, passei boa parte da vida achando que nunca havia sofrido racismo, e que era uma pessoa sortuda por isso.

Aos dezoito tive o choque de realidade. Bem tarde, eu sei, mas com a grande onda de discursos problematizadores dentro e fora da sala de aula, eu percebi que tudo ainda estava errado para os negros, e que o processo de embranquecimento era mais cruel do que parecia na teoria.

A coisa toda começa no Colorismo: quanto mais pigmentada a pessoa for, mais exclusão e discriminação ela irá sofrer. Logo depois disso, entra o processo de embranquecimento que força indiretamente, nós negros, a entrar no mundo branco: cabelos crespos/cacheados ficam lisos, narizes largos são “arrumados” com cirurgia plástica ou maquiagem, e todos nossos heróis que marcaram momentos históricos, como Malcolm X, os Panteras Negras, Angela Davis, Martin Luther King (e tantos outros, sem esquecer os contemporâneos ) , ficam invisíveis.

“I feel like I’ve been here before. I feel that knocking on my door and I’ve lost everything I had. And I’m not angry and I’m not mad”

Para as mulheres a coisa aperta um pouco mais, porque carregamos duas minorias nas costas e ainda ficamos na base da pirâmide social, sendo silenciadas por homens negros, mulheres brancas e homens brancos. Além de carregar acontecimentos historicamente desgraçados como a escravatura, somos estereotipadas, sexualizadas e abandonadas. Mas isso é assunto para ser discutido outro dia.

“I’ve been low and I’ve been high. I’ve been told all my life I’ve got nothing you to pay, and I’ve got nothing left to say”

A questão é que ser negro em um mundo branco não é fácil. Somos silenciados quando tentamos lutar pelos nossos direitos, nossas famílias são caracterizadas como problemáticas, nossos homens são estereotipados como marginais, nossas mulheres como domésticas e nossas crianças como “filhos de mães solteiras”.

Nosso cabelo crespo/cacheado é ruim, mas se for de uma mulher branca é lindo. Se usamos turbantes somos “macumbeiros”, mas se for na cabeça de um branco é tendência. Somos escolhidos para noites de transa – “boatos que o homem negro é bem dotado, e a mulher negra é quente!” -, mas nunca escolhidos para relacionamentos sérios. Se somos bem sucedidos isso é motivo de festa, como se fossemos uma criança que acabou de aprender a andar.

Mas esse meu discurso não é para fazer um pedido de paz ao homem branco, mas sim, para afrontar todos os pretos que não se enxergam como tal, que são como eu fui há alguns anos atrás. É também um agradecimento aos irmãos que lutam, que erguem seus punhos e seus cabelos sem medo das consequências e dos julgamentos, e que entendem que enquanto houver motivos para lutar, iremos lutar, gritar, ocupar e resistir.

“I’m a black man in a white world, I’m a black man in a white world, I’m a black man in a white world, I’m a black man in a white world”.

Evelyn Rachid

Author Evelyn Rachid

Evelyn desde 1996 e Rachid desde 2010. Estudante de Jornalismo, que também quer ser artista plástica. Natural de Belém do Para, também é mineira, brasiliense, pernambucana e, atualmente, paulistana. Adora frio, sorvete, Frédéric Chopin, abraços apertados e sorrisos. Deboísta, arretada e louca. Não entende nada de signos. Ama falar sobre música, cinema e literatura.

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