Realizado a partir de financiamento coletivo da sociedade civil, Martírio foi filmado em dois momentos: entre 1988 e 1999 e entre 2011 e 2014

No hoje já remoto ano de 2012, antes da proliferação dos gritos de “Fora, Dilma!” ou da sequer existência de “Fora, Temer!”, uma grande manifestação política era realizada virtualmente, através do Twitter e do Facebook.

Naquele ano, após a divulgação da carta de um grupo de 170 indígenas que anunciava sua morte coletiva, milhares de internautas inseriram Guarani-Kaiowá em seus sobrenomes nas redes sociais, como forma de solidariedade àquelas etnias. O evento, marcante pelo ineditismo, foi apenas uma breve luz lançada sobre uma questão complexa que há décadas derrama muito sangue no coração do território brasileiro.

Muito antes da manifestação virtual, o antropólogo, indigenista e cineasta Vincent Carelli já acompanhava a situação dos povos guarani e caiovás. Nascido na França e formado no Brasil, Carelli une suas funções a serviço do registro e divulgação da dura vida dos índios no país. Depois de ter comandado o projeto de formação de cineastas indígenas, Vídeo nas Aldeias, Carelli acaba de finalizar Martírio, um documentário de 162 minutos, resultado de trinta anos de filmagens.

Realizado a partir de financiamento coletivo da sociedade civil, Martírio foi filmado em dois momentos: entre 1988 e 1999 e entre 2011 e 2014. O filme conta com rico material de arquivo externo, como mapas, cinejornais antigos, gravações de sessões parlamentares e reportagens televisivas. Sua estrutura não é cronológica e a costura dos diferentes materiais e contextos filmados enriquece a produção, pois mostra a perenidade de uma verdadeira guerra civil que ocorre na região sul do estado do Mato Grosso do Sul.

Martirio começou a ser filmado no instante em que índios guaranis e caiovás seguiam uma marcha de retorno às suas terras sagradas, as chamadas Terokés. O documentário nos apresenta como, a partir de décadas de ações do Estado, esses povos foram tirados de suas terokés; e também mostra que o descaso com os povos indígenas é secular.

Fugidos dos conflitos com os bandeirantes, guaranis e caiovás mantiveram-se completamente isolados na vasta região à margem oeste do Rio Paraná por mais de cem anos, até as expedições promovidas pelo Império brasileiro no século XIX. Com a Guerra do Paraguai, um enorme território foi anexado ao Brasil, país que durante boa parte do século XX considerou a questão indígena apenas como missão civilizatória. Nos novecentos, a plantação de erva mate, a pecuária e, posteriormente, a agricultura mecanizada da soja e da cana-de-açúcar, foram responsáveis por tirar dos índios a posse das terras sagradas onde seus antepassados estavam enterrados. Ao mesmo tempo, políticas do Estado, como o Serviço de Proteção ao Índio e as colônias agrícolas de Vargas transferiram e confinaram os povos nativos para pequenas e afastadas reservas indígenas. O inchaço dessas reservas fizeram com que os índios iniciassem sua marcha de retorno.

Narrado pelo próprio Vincent Carelli em um tom muito pessoal, Martírio não esconde seu posicionamento. O longa nos apresenta figuras que emendam a língua portuguesa ao seu idioma nativo em uma luta por direitos praticamente invisível. Durante quase trinta anos de projeto, homens e mulheres aparecem contando sobre suas vidas, mostrando balas alojadas sem seus corpos e apresentando com fervor as terras que lhe são importantes. Para Carelli, “o boi nelore não vale mais do que gente”.

Através de uma fluida montagem, o significado da terra fica explícito para os dois lados do conflito. Enquanto um político proclama ao microfone, durante um leilão de bois que “a propriedade é a coisa mais sagrada que o ser humano tem; a propriedade é aquilo que motiva o cidadão a viver!”, uma índia afirma com veemência que “os brancos não sabem que essa aqui é a nossa terra, mas nós sabemos porque nascemos aqui” e se emociona ao falar que naquele chão estão enterradas as suas avós, bisavós e todos seus parentes. A sacralidade para um é a propriedade privada; para outro a terra é sagrada por pertencer ao criador para usufruto de todos.

Carelli e os codiretores Ernesto de Carvalho e Tita evidenciam o peso desigual desta luta que assemelha-se à questão da Palestina. Enquanto em plenário, deputados e senadores acusam os índios de serem violentos, as imagens filmadas no território sul-mato-grossense mostram populações vivendo em barracos à beira de rodovias, em condições absolutamente precárias. E o diretor comenta em voz-over as disparidades: em três décadas, trinta lideranças indígenas foram mortas, contra três policiais. E aquele território se tornou um dos recordistas em número de suicídios em todo o planeta.

Ao mesclar as imagens dos anos 1980 e 1990 com as de 2010, Martírio apresenta-se em razões de aspecto diferentes, o que não atrapalha a narrativa. Carelli e equipe mostram festas de rodeio, leilões, máquinas agrícolas e falas de autoridades em oposição às com reuniões, rituais e depoimentos fortes de índios. Mas o filme é muito mais que um filme de guerrilha, ou de militância. Martírio é um trabalho de pesquisa histórica que percebe sua importância. “A história é o fiel das demandas indígenas e ela não poderá se apagar”, narra Carelli no ato final da projeção.

Entre imagens de ataques de pistoleiros filmadas pelos próprios indígenas e uma já histórica invasão do Congresso Nacional realizada pelos índios em 2013, Martírio consegue registrar momentos de lirismo trágico desses povos em sua luta, como no momento em que uma liderança diz para sua tribo: “nós estamos em pé, mas cheirando a vela ao nosso redor”. Propositalmente ou não, em uma cena no ato final do filme, um índio que mostrava à equipe as marcas de balas na fazenda que sua tribo estava ocupando, vestia uma camisa de campanha publicitária para o hexacampeonato da seleção brasileira na Copa de 2014, cujo slogan estampado era “Nunca desista do que pertence a você mesmo”.

Confira o trailer:

https://www.youtube.com/watch?v=5zVzRAiDR78

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