Charles Bukowski ou como é comumente conhecido, “Velho Safado”, teve uma vida conturbada. Nasceu na Alemanha em 1920, e imigrou para os Estados Unidos em 1924, residindo em Los Angeles, onde viveu até sua morte.

Foi criado em meio à pobreza, em um ambiente familiar repleto de totalitarismo e repressão, onde seu pai – um sargento reformado – o maltratava diariamente, quase por diversão. Bukowski nunca foi um cara atraente, e aos 16 anos se viu em um grande dilema com as espinhas. Por conta disso, passou por diversos experimentos para tentar sanar o problema de pele, e acabou adquirindo algumas cicatrizes, transformando-o em um adolescente calado e solitário.

Foi na juventude que ele teve suas maiores descobertas, como o álcool e os prazeres da literatura. Passava tardes devorando os livros na Biblioteca Pública de Los Angeles, e foi com o álcool que descobriu que poderia aliviar as frustrações do dia a dia.

Começou a escrever para afugentar a solidão, na época, sua maior inspiração foi o escritor John Fante que também tinha como característica a temática marginal; foi através dele que Bukowski descobriu sua vocação para ser escritor.


Ele nunca chegou a ter uma formação, iniciou os estudos na faculdade Los Angeles City College, para cursar Jornalismo e Literatura, mas dois anos após o ingresso, abandonou os estudos no início da Segunda Guerra Mundial, para tentar viver o sonho de ir para Nova Iorque e iniciar sua carreira de escritor. Como nada eram flores em sua vida, ele não conseguiu chegar ao destino, pois acabou sendo preso pelo FBI por fraude no alistamento do Exército. Ficou preso durante 16 dias e foi dispensado do serviço militar após falhar no teste psicológico e físico.

Quando voltou à Los Angeles, tentou algumas publicações, porém sem sucesso. Após tantas tentativas, decidiu parar de escrever, e permaneceu assim durante dez anos, nomeados por ele como “ten drunk years” ou “lost years”. Em meados da década de 50, começou a trabalhar nos correios, passando por diversos setores, desde administrativos até como carteiro. Em 1969 foi convidado a se demitir do cargo pelo editor da Black Sparrow Press, ao aceitar seus primeiros originais de um romance.

Em 1967, começou a desfrutar de sua fama, ao se tornar colunista da revista underground, chamada Open City.  Sua coluna chamada Notes of a Dirty Old Man, mostrava um Bukowski com escrita madura e no seu auge criativo.

A cena de pobreza em que vivia em Los Angeles, o histórico com bebidas alcoólicas, romances com prostitutas e inúmeras desventuras na vida pessoal, fizeram de Bukowski um grande poeta, talvez um dos mais genuínos escritores entre os autores do século XX, do cenário marginal.

Foi com a escrita repleta de sofrimento, romance e um cotidiano autobiográfico que fez com que ele mantivesse esta linha tênue de cumplicidade com seus leitores até os dias de hoje. Entre poemas, contos, crônicas e romances ele conseguia fazer com que os leitores se identificassem com aquele cenário descrito, talvez pela escrita sem pudor ou sua vivência com o mundo – meio azarada, eu diria -, mas algo que realmente nos faz sentir o mundo de uma forma diferente.

Bukowski e seu alter-ego Henry Chinaski foram devidamente apresentados ao mundo em 1971, com a publicação do livro “Cartas na Rua”. Mesmo desfrutando da verdadeira fama na década de 80, ele deixou sua marca por onde passou. Um dos exemplos, foram suas leituras em universidades e eventos culturais nos anos 70, onde lia seus poemas  com um tom de deboche e frequentemente arrumava briga com algum jovem universitário que estava na plateia.

O Velho Safado era um bebedor de longa data, e no auge dos seus 70 anos começou a se afastar da vida agitada que passou a ter, pois foi diagnosticado com Leucemia e seu longo histórico de bar acarretou em muito sofrimento em seus últimos anos de vida.

Internado e inconsciente por vários dias, Henry Charles Bukowski Jr faleceu no dia 09 de Março de 1994. Diferente de quase toda sua trajetória, no momento de sua partida ele estava cercado por amigos, amor e pelo carinho dos fãs pelo mundo todo.

Com mais de 40 livros publicados e adaptações cinematográficas, Buk deixou sua marca na vida de muitas pessoas, e continua mais vivo do que nunca. Vivo em cada cigarro tragado, em cada copo de uísque sobre a mesa do bar; vivo em seus livros. Apesar da vida conturbada e compartilhada com todos nós, ele nos ensinou que “o que importa é o quão bem você anda sobre o fogo”; puro contentamento e equilíbrio interno, como diz no poema ‘Como está o seu coração?’.

Evelyn Rachid

Author Evelyn Rachid

Evelyn desde 1996 e Rachid desde 2010. Estudante de Jornalismo, que também quer ser artista plástica. Natural de Belém do Para, também é mineira, brasiliense, pernambucana e, atualmente, paulistana. Adora frio, sorvete, Frédéric Chopin, abraços apertados e sorrisos. Deboísta, arretada e louca. Não entende nada de signos. Ama falar sobre música, cinema e literatura.

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