Em São Paulo, o número de mortes de negros em decorrência de ações policiais é três vezes maior que o de brancos. 

Segundo uma pesquisa realizada pelo Datafolha, 86% dos homens negros da capital já foram parados pela polícia e entre os mais jovens o número chega a 91%. O auxiliar de limpeza Welder Luiz Santos, 27 anos, e o analista de faturamento Walace Fernandes, 20 anos, já sentiram na pele a discriminação racial por parte da polícia.

“Uma vez, no caixa eletrônico do banco, os policiais militares que estavam lá ficaram ao meu redor esperando eu sacar o dinheiro”, relata Welder.

“Um dia eu estava indo para uma festa com um amigo e nos deparamos com uma viatura da PM. Eles já desceram do carro com o revólver engatilhado na expectativa de fazer o flagrante. Eles só queriam um motivo para quebrar nós dois, na calada da noite e sem testemunha. Fizeram o procedimento normal, nos revistaram e até aí tudo bem, mas um deles embaçou no nosso corte de cabelo dizendo que os moleques que cortam o cabelo assim usam drogas ou estão envolvidos com a criminalidade”, relata Walace.

Segundo Walace, o corte de cabelo que um dos policiais se referiu é o mesmo que ele usa desde criança.

“Esse corte que ele se referiu é a forma que eu corto o cabelo desde pequeno, a Gillette dos lados e em cima bem baixinho, ou seja, fomos julgados somente pelo corte de cabelo. Talvez as nossas roupas tenham influenciado, a cor da pele também é outro fator. Se fossem dois homens brancos, de cabelos lisos e bem arrumados, será que o tratamento teria sido o mesmo? Essa foi só uma das várias abordagens, até com o uniforme da empresa, cansado e voltando do trabalho eles já me acharam suspeito. Acho meio sem nexo esse critério que eles usam para definir quem pode ser considerado suspeito”, completa Walace.

O estudante de Biomedicina Jonathan Vicentt, 26 anos, diz que o racismo é comum no dia a dia de quem é negro e que por medo de ser mais uma vítima, procura se vestir de acordo com os locais que frequenta.

“A discriminação racial é evidente em muitos campos do nosso cotidiano. Ao entrar em uma loja, na universidade, no ambiente de trabalho e é altamente explícita na polícia militar e civil. Atualmente não tenho sido vítima desse tipo de discriminação pois, por medo, tento me padronizar ao local que estou indo”, relata.

A historiadora Suzane Jardim, pesquisadora de Ciências Humanas e de dinâmica racial, afirma que a marginalização da população negra não está ligada apenas ao período escravocrata, como a maioria das pessoas costumam associar.

“Ao meu ver e segundo o consenso historiográfico, a situação atual e os problemas do negro brasileiro têm raízes muito mais fincadas no período do pós-abolição do que no período escravista propriamente dito. A marginalização veio com a negação de uma cidadania plena feita de modo deliberado pelo Estado e suas instituições em um período onde o negro já era livre e, em tese, desimpedido para viver em igualdade. Entretanto, essa negação de cidadania que foi praticada durante nosso período republicano só se explica dentro do contexto de uma sociedade que teve o escravismo e a desumanização do escravizado como um de seus pilares estruturantes. Então creio que somente a escravidão não explica e nem resume essa marginalização e que insistir nessa simplificação acaba por tornar o debate distante, passando a imagem que os negros brasileiros são marginalizados devido a um legado histórico que não se pode alterar, mas não devido a questões que são ainda atuais e interessam a todos nós.”, afirma.

A historiadora explica também o porquê da violência que os jovens negros sofrem por parte da polícia, que não é motivada apenas pelo racismo dos policiais envolvidos nos casos.

“Afirmar que a violência policial contra a juventude negra é motivada pelo racismo de indivíduos que fazem parte da instituição também simplifica o debate e passa a impressão de que se retirarmos alguns elementos de dentro de nossa polícia, estaremos com a questão resolvida. A violência policial tem relação com toda a formação criminalista, jurídica e psicossocial do país. Nossa polícia ainda é treinada sob as lógicas do profiling, onde se trabalha os suspeitos prováveis e os criminosos em potencial. Graças a lógicas já antigas e pseudo cientificas de análise, o negro sempre foi posto como esse suspeito ideal, o criminoso perfeito cuja vida não tem importância. Esse legado cunhado sob estereótipos somado à lógica de guerra com a qual a nossa polícia é treinada, termina por gerar um ciclo de violência que em nada contribui para a segurança pública e que só agrava a situação de marginalização do negro e a realidade do genocídio dessa juventude. Negar essas afirmações ligando o problema a “indivíduos racistas” trava o trabalho que hoje é feito para que tenhamos uma instituição humanizada para lidar com nossa segurança”.

Nataly Simões

Paulistana mas vive em Guarulhos, estuda jornalismo e gosta da liberdade de poder falar sobre diversos assuntos. Entre suas maiores paixões, esta a música e o cinema.

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